segunda-feira, 11 de maio de 2009

UM NORTE











Wa, o wana s'ekau dia Yave;
mbongo a vumu i nsendo andi"
Mkunga 127:3
(Salmos)

Acróstico
Para a minha filha


Ainda que o amor não existisse
Não haveria tamanho sentimento
No céu, na terra ou até no inferno
Antes desse que por ti me alimento


Com você o meu universo
Acontece como a flor que brota na rocha;
Realiza-se com a fé que se levanta
Onde o concreto se afrouxa;
Levita-se acima das nuvens cinzentas
Intentando abrir-te um norte
No qual possas seguir sempre ditosa
Ainda que logo me chegue a morte!


N. Talapaxi S.

domingo, 10 de maio de 2009

KUMBÚ, PRA QUEM TE QUER...











Kumbú
Pra quem te quer...

Podes comprar a cama
Mas não podes garantir o sono;
Podes ostentar a coroa
Mas não podes perpetuar o trono


Podes comprar a harpa, o kissanje,
Mas o talento tem valor inestimável;
Podes ate inventar asas e voar
Mas voar como a água é impensável


Kumbú
Pra quem te quer...
Podes ate comprar a garina
Mas o coração dela, jamais;
Pode o homem até se vender
Mas não serás dono dos seus ideais


Podes empunhar a mutimba
Mas a segurança não garantes;
Podes blindar a carroça
Mas não podes estancar os meliantes


Kumbú
Pra quem te quer...


Podes comprar um castelo
Mas os sonhos não podes pagar;
Podes até subornar as rugas
Mas o tempo não se deixa enganar


Podes mesmo rifar o corpo
E assalariar os prazeres do sexo
Mas não podes pagar o lume da paixão
Nem a ventura de partilhar um nexo


Kumbú
Pra quem te quer...


Essa vida se hipoteca aqui
E na morte não encontra apreço;
Podes comprar todos os tesouros
Mas a felicidade não tem preço!

Kumbú
Pra quem não te quer
Eu te quero


N. Talapaxi S.








SIMPLESMENTE... LUZ!


Á amiga
Louise Luz



Para rasgar o breu
Da noite que - por vezes - te assola
Mesmo quando de noiva se veste a lua
Pra enlaçar-se com a tua alma
No templo luzido dos teus olhos...




Basta que sejas um raio de sol
Que sejas simplesmenmte... Luz!




Se luscos e fuscos
Quedarem-se todos os horizontes
E não poderes veslumbrar uma ponte
Que te leve à cabal felicidade,
Lembre-se de se virar pro alto do Monte




E clame por socorro - reflita o astro-mor,
E seja simplesmente... Luz!




Não haverá mares vermelhos
Que não se abram para a tua passagem,
Por mais tenebrosas que sejam as suas ondas,
Nem tempestades sobre as quais não triunfes
Por mais torrenciais que sejam as suas águas




Basta que tenhas uma mostarda de fé,
Que sejas... simplesmente luz!




N. Talapaxi S.
(Niteroi, 2003)






quinta-feira, 7 de maio de 2009

"SÓ SEI QUE NÃO SEI"


Me espanto com as coisas
E com as pessoas,
Sou levado a temer
Bichos que não vejo,
Sou enganado por máscaras
Que os homens desfilam;
Quero saber
De onde vem "o quê",
Porquê "assim" não é "assado"
Para que a vida seja mais fácil


Mas seria a vida
Realmente mais fácil?
- Não sei!
- "Só sei que não sei"!
Me dei conta
Que posso pensar - e penso!
Me dei conta
Que posso imaginar - e imagino!


Tantas vezes
Passo cego e surdo
Por belezas que me cercam
- E até me perseguem!


Mas me quedo estupefato
Admirando coisas
Que só se desenham na minha cachola
E a realidade é um pesadelo
No final do sonho
Quando vejo o meu corpo
Em queda livre num abismo


E acordo!
Me assusto com as coisas
E com as pessoas;
Sou obrigado a admirar
As belezas que me cercam
- E até me perseguem!
Pensando nas coisas
Que só se desenham na minha cachola
Ainda que no final
O sonho volte a ser um pesadalo


Me dei conta
Que posso imaginar - e imagino!
Me dei conta
Que posso pensar - e penso!


Quem sou eu?
Onde eu estou?
De onde vim?
E pra onde vou?
- Não sei!
- "Só sei que não sei"!


N. Talapaxi S.








domingo, 19 de abril de 2009

LIS DO MEU VALE







Seguindo o mapa do Santo Pergaminho
Encontrei a graça que sempre quis;
No vale do meu lamento achei um lis
Entre os abrolhos espalhados no caminho


Quão tamanha dadiva é esse lirio
No meio do panorama pedregoso que avisto!
Que prazer maior é o do amor conquisto
Quando a vida se impõe diante do delírio!


Sei das quedas e tropeços do meu percurso;
Deixem o meu pranto seguir o seu curso,
Se as petalas desse lis não podem enxuga-lo


Sei que todo o devir pertence ao Criador;
Confio ao Seu milagre o meu martirio sonhador,
Se não fores tu o lirio desse vale sem graça



N. Talapaxi S.
(Salmos de Um Apaixonado)

a sair

EVA PRA MIM


"Owu wina kinkongolo
muna nzumbu a ngulu,
i win'o mote a nkento
akondwa zayi."
Ngana 11:12
(Provervios)



Pouco importa se os teus olhos
Não são celestes ou de esmeralda,
Se os teus lábios não são de carmesim


Pouco importa se os teus cabelos
Não são como as quedas de Niágara,
Se as tuas formas não são de manequim


Pouco importa se os teus passos
Não têm os meneios da gazela,
Se a tua formosura não é de querubim


Pouco importa se a tua morenice
Não é um dermosaico afroariano,
Se as tuas modas são demodés de cetim


Pouco importa se as tuas memórias
Não são cercadas de medalhas e aplausos,
Se as tuas prendas não chegam ao pudim


Pouco importa o que muitos dizem;
Não podem atirar-te a primeira pedra
- Hipocritas! Linguas de pasquim!


Importa que eu te ame - mesmo assim,
Que sejas - de Jeová - a minha Eva
Em busca do caminho de volta ao Jardim!



N. Talapaxi S.
(Salmos de Um Apaixonado)
a sair

SER HUMANO


"O Nzambi ovovele vo,
tuvangila muntu muna mpw'eto,
muna fwaniswa kieto..."
Etuku 1:26-26
(Genesis)



Há uma dor
Dentro de cada amor

Há um medo
Dentro de cada segredo

Há uma tristeza
Dentro de cada beleza

Há uma paixão
Dentro de cada coração

Há um pranto
Dentro de cada encanto

Há um salario
Dentro de cada santuario

Há uma culpa
Dentro de cada desculpa

Há um sacrificio
Dentro de cada beneficio

Há uma sorte
Dentro de cada morte

Há um Ser-divino
Dentro de cada ser-humano



N. Talapaxi S.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

ESSA PAIXÃO

Para
Vanda Lúcia
no Dia dos Namorados

"Onosolwele nkento,
osolwele wete,
vo tambula
nsambu kwa Yave"
Ngana 18:22
(Proverbios)

Se a paixão é cega
Eu quero o amor - que enxerga

Se a paixão é labareda
Eu quero o amor - que reluz sem queda


Se a paixão arrebata
Eu quero o amor - que não maltrata


Se a paixão é êxtase
Eu quero o amor - que é a ênfase


Se a paixão é o afã
Eu quero o amor sem balangandã


Se a paixão é só sexo
Eu quero o amor - que é todo nexo


Se a paixão é egoista
Eu quero o amor - que é realista


Se a paixão prende
Eu quero o amor - que aprende


Se a paixão só quer ter
Eu quero o amor - que sabe ser


Se a paixão é o lis
Eu quero o amor - que é a raíz


Se a paixão é aquilo
Eu quero o amor - que é isso


Se a paixão é agora
Eu quero o amor - que é sempre


Se a paixão é você
Eu não quero o amor sem te merecer


Mesmo sabendo que sem amor
A vida é uma desgraça;
Mas sem a paixão
Também nao tem graça!



N. Talapaxi S.
(Arujá,2007)
em Trapos & Farrapos, Parte 3

















quinta-feira, 9 de abril de 2009


FOI ENGANO

N.Talapaxi S.





Chorei um
Chorei dois
Chorei três...

E os dias fizeram um mês!

Esperei um
Esperei dois
Esperei três...

E os meses fizeram um ano!

Contei um
Contei dois
Contei três...

Só então convenci-me de vez
Que foi apenas um engano!


LUTAR


...porque
Se o destino é o percurso
E a morte não é o fim,
A vida não será sempre
Trapos e farrapos


N. Talapaxi S.

LONGE


"Eki kivalukidi
yo sina kikilu,
nani osolola kio?"
Kimpovi 7:24
(Eclesiastes)

Longe - onde é?
É onde nunca se foi
É onde não se conhece ninguem
É onde o mapa não tem ponto
É onde nem os sonhos alcançam

Longe é bem mais que distante:
É longe!

É onde se atira e não se atinge
É onde não se tem pressa de aportar
É onde se vai e não se chega;
Se foi e não se voltou

É de onde não se traz saudades
É onde os paralelos se enlaçam
E os perpendicularem não se cruzam
É onde as rosas exalam acacias
E as orcas geram zebras;

Longe não tem fronteiras
Ou tem todas as barreiras

Longe é alem do horizonte e do zenite
É alem dos astros e de plutão
É alem da vida e da morte

Longe é a incognita
E... ou... o abstrato,
É o absurdo ou o concreto


Longe é a distancia imensuravel
Todavia transponivel
Atraves da nave que cruza o cosmo
E apalpa o marte
Do beijo que atravessa a alma
Da esperança que sobrevive a morte
Do amor que se gloria sobre o inferno
Da corangem que rompe os menos
Dos sonhos que alçam a vida
Da fé que move montanhas...

Longe é tão distante ou tão perto
Longe é onde queremos que seja:
Qualquer lugar
Ou dentro de nós!


N. Talapaxi S.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

CAIRAM ROSAS DOS MEUS OLHOS !


Eu só queria
Sob a codea térrea
O mais longe in-possível
O mais profundo precipicio
Que no chão
Existe tecido
Pra sepultar essa paixão!



...e nem um tumulo
Em memoria a idas eras de felicidade
Seria erigido sobre o sepulcro


Pra quê
Essa obra de fidelidade
Se eu não queria reminiscencias?


...e esse sentimento
Jamais seria outra vez experimentado
Nem por mim
Nem por você

Eu só queria uma cova
Para sepultar-me dessa sina
Sem promessas de ressurreição
Se ao amor a dor se destina

Mas diante do teu retrato
Fragmentaram-se meus abrolhos
E, entre a paixão e a saudade,
Cairam rosas dos meus olhos !


N.Talapaxi S.
S.Paulo, 1996

QUADRO VAZIO


"o moyo ame uladidi
muna ntantu;
unkumika mun'owu
wa diambu diaku"
Nkunga 119:28
(Salmos)



Pousei sobre as petalas
dos teus labios
Meus sonhos
como asas de borboleta;
Colhi da Primavera
desabrochada da tua boca
Cores, odores...
sabores de ímpar faceta


Entre o teu e o meu ser
um arco-íris;
Mas aonde estão as nuances
das suas aguarelas?
Entre a flor e o firmamento,
o meu faro,
Na tela do teu sorriso,
pode percebe-las


Mas que pena que a borboleta
bateu as asas e decolou;
Que pena
que a Primavera perdeu a cor
E o arco-iris desbotou!


Da tela do teu sorriso
Só vejo agora a moldura
Porque - na verdade,
O meu sonho era a pintura!


N. Talapaxi S.
(Niterói, 2000)







CONTRASTE


"Mawonso mekwiza wau
awumosi kw'awanso;
dimosi dibwulang'nsongi
yo kimpumbulu:
ona wambote, wavelela,
y'ona wafunzuka..."
Kimpovi 9:2
(Eclesiastes)


Uma cubata
Feita de lata
La no morro
Vem chuvisco
É um risco
Sem socorro!


Uma mulher
Sem o prazer
De um leque
Sem complexo
Vende sexo
No musseque!


Uma criança
Na desgraça
Se consome;
Se desenrasca,
Raspa casca
Ou cai de fome!


Zé Povinho
Sem ninho
Nem farol
Dorme na rua
Faça lua
Ou faça sol


Dom Deputado
No outro lado
Em vida bela
è gente fina
Não combina
Com favela


Mansão na praia,
Rabos-de-saia...
Compra justiça;
Sempre na moda,
Uisque com soda,
Dispensa linguiça



Kumbú à solta,
Capangas em volta,
Mil puxa-sacos...
Vivendo nessa
Não se interessa
Saber de barracos


Oh, sorte injusta!
Me assusta
Esse contraste!
Uns ditos nobres,
Outros feitos pobres
Na vida que lhes ofertaste!

N. Talapaxi S.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

UNIÃO


Uma união de tábuas
É uma embarcação;
A embarcação sem união
É naufrágio

Uma união de pedras
É um edifício;
O edifício sem união
É ruína

Uma união de flores
É um jardim;
O jardim sem união
É mato

Uma união de homens
É um exército;
O exército sem união
É despojo.

Uma união de vozes
É um coral;
O coral sem união
É ruído.

Uma união de nubentes
É um matrimônio;
O matrimônio sem união
É divórcio.

Uma união do barro e do sopro divino
É o homem;
O homem sem união
É cadáver.

De tudo quanto existe
A união é a vida;
A vida sem união
É morte.


N.Talapaxi S.

domingo, 22 de março de 2009

PALAVRA CALADA


"E ma yawonso ivwidi nsungi andi;
e bila yawonso kunsi
ezulu ina yentangw'a butama
ye ntangw'a vova"
Kimpovi 3,1.7
(Eclesiastes)

A palavra é a matéria,
O silêncio é o espírito;
A palavra é o corpo,
O silêncio é a alma;
A palavra é o dia,
O silêncio é a noite;
A palavra é a vida,
O silêncio é a eternidade.

Somos reféns do que falamos,
Somos donos do que calamos.

A palavra é a armadilha,
O silêncio é a sensatez;
A palavra é o vestuário,
O silêncio é a nudez;
A palavra é a revelação,
O silêncio é a surpresa;
A palavra é o anúncio,
O silêncio é o segredo;
A palavra é a música,
O silêncio é a saudade;
A palavra é a prece,
O silêncio é a meditação.

Somos condenados pelo que falamos,
Nos condenamos pelo que calamos.

A palavra é a flor,
O silêncio é o embrião;
A palavra é a vaidade,
O silêncio é moderação;
A palavra é a moldura,
O silêncio é a pintura;
A palavra é grande - diz alguma coisa,
O silêncio é maior - diz tudo ou nada.

Falar nunca será defeito
Mas saber calar será sempre virtude!


N. Talapaxi S.

sexta-feira, 20 de março de 2009

NA LINHA DO PRECIPICIO


Arrumo a minha trouxa de bicuatas
E me mando para dentro de mim;
Quanto mais penso, mais ela pesa;
Tanto mais vivo... mais perto do fim

Desalojo as cobras da cachimônia
Mas os grilos insistem em se alojar;
Se eu não parar de falar comigo mesmo,
Não sei me dizer aonde vou parar

Mais que uma tonelada na cabeça
Pesa a faculdade que me tortura o juízo:
Tenho alguma coisa a ver com a vida alheia
E deixo de fazer algo que seja preciso?

Desvio o olhar - finjo que que não vejo;
Fecho os olhos - rasgo o peito - e entro;
Mas é a mesma cena por todos os lados,
Ela me persegue por fora e por dentro:

O kandengue dobrado, em feto, ao relento,
Gravidez de uma sociedade que o chuta,
É um aborto abandonado no acostamento
Ao desdem de uma patria prostituta

O tapete vermelho de sonhos e trofeus
É um baton no semblante da filantropia:
Por baixo esconde-se o funguto do sistema,
Por cima desfila-se o perfume da hipocrisia

Uma retorica musicada em nome de Deus
É a dissonância belica em muitos templos;
O som que parece angelico suscita maldições
O pendão que se alça traz nodoas de exemplos

O camarada entregue as drogas do destino
Busca o ecstasy da vidano crack da noia,
Um alucinogeno correndo nas veias da urbe
Sem esperança de achar na sargeta uma tipoia

E a senhora postada no vertice das avenidas
Chocalhoando a alma a espera de merrecas,
Ao compasso do chocalho que a penuria lhe impõe
Mas os homens ignoram com as mãos secas...

Tudo. Tudo isso é muito pra minha cabeça!
Preciso me afastar da linha do precipicio;
Recolho a minha trouxa, bicuata por bicuata,
E me mando pra bem longe desse hospicio

É escusado desviar o olhar - fingir não ver;
É a mesma cena por todos os lados - um pesadelo!
Quanto mais penso, mais grilos na cachimonia;
Tanto mais vivo, mais escuto o mesmo apelo:

Deixe de tentar entender
O coração humano;
É melhor desfrutar da vida
Que terminar insano!!!


Talapaxi
Maio/2007


http://talapaxi.blogspot.com

terça-feira, 3 de março de 2009

ACROSTICO







Levei os meus devaneios


Um por um - ao teu encontro;


Lá onde tu és uma deusa


Um mortal se deslumbra:


Zelas pelos meus sonhos


Iluminas os meus refolhos


Não me deixas sem teus afagos...


Há doçuras que transbordam


Até que um dia eu acorde!






N. Talapaxi S.


Niteroi/ 2009












terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

AMIGOS SÃO ETERNOS



A vida nos da a chance
A gente aproveita e faz amizades
Tece os laços
Colhe os louros
Aprende com as adversidades
A gente ri e chora
Se chega e se aparta
A gente segue outros ramos
Na arvore das idades
No meio do labirinto do percurso
No curso que a vida leva
O tempo pode ate nos afastar
Mas não pode nos matar
Se vivermos
Uns no pensamento os outros

Amigo
Eu ainda rio com voce
Eu ainda choro com voce
No meu pensamento
Amigo
Eu ainda abraço voce
Ainda brigo com voce
No meu pensamento
Onde voce esta, amigo
Seja debaixo da terra
Seja no alto do céu
Enquanto a vida me der memória
Não vai faltar vida pra voce
Enquanto eu for vivo
Estaremos sempre juntos
E voce será eterno

A vida nos da a oportunidade
E a gente faz a eternidade

N. Talapaxi S.
S.Paulo, 2009