sábado, 24 de outubro de 2009


FRUTA PROIBIDA

N. Talapaxi S.






Quem te toca


Não te troca;


Quem não toca


Te provoca;


Quem te troca


Não se toca;


Quem provoca


Se choca;


Quem não se choca


Nem desboca;


Pois, quem tem boca


Te evoca!!!

quinta-feira, 22 de outubro de 2009


NÃO ME DIGA

PRA NÃO SONHAR
(N. Talapaxi S.)


“Vo i lukwikilu, i lusikidisu lua mana
Mesiwang’e vuvu, e nton’a lekwa
Ilembele moneka”
Ayibere 11:1
(Hebreus)



Não me digas pra não sonhar

Não é ao teu pé
Que o manto da kandengue se definha
E traz à tona o tenro esqueleto
Com a cara lívida
Implorando mais alma
Para escorar o corpo mazeza
Ao menos até o próximo amanhecer

Não me digas pra não sonhar

Não é a tua cabeça
Que perde os travesseiros
Nos pesadelos de cada torrente que cai
E racha o teto – já remendado,
Mistura-se ao pranto
Alaga a ilusão...
Só não arrasta a fé
Que – ainda – segura a cubata na encosta
Ao menos até a próxima chuva

Não me digas pra não chorar
Não é no teu prato
Que a colher raspa o vento
.....................................
Ao menos até a próxima esmola

Não me digas pra não sonhar

Não é o teu peito
Que sangra de tristeza
Quando a mão sai vazia do cafocolo
E nem um lwei furado
Pra inteirar na miséria da passagem
Em busca de bumbas subalternas
Pra contornar a indigência
Ao menos até o próximo biscate

Não me digas pra não sonhar

Não é o teu dorso
Que suporta os pregos dessa cruz
Dessa paixão que maltrata
Suga o viço
Enruga a cútis
Zomba – cospe – chuta – joga...
Mata um pouco a instante...

Pelo menos até o próximo biscate
Pelo menos até a próxima esmola
Pelo menos até a próxima chuva
Pelo menos até o próxima amanhecer

Só me resta agora o sonho.
Não me digas pra não sonhar!

segunda-feira, 19 de outubro de 2009


É A CARA DO PAI!

(N. Talapaxi S.)


Tremo de gratidão
Ao Sr Azor Ferreira

Que Deus lhe abençõe!


"Nkw'akundi ayingi,
Nkwa mpasi zayingi;
Vena yo nzodi anlaminima,
Mpangi uke".

Ngana 18:24
(Provérbios)



Cheguei cego e feito de retalhos,

Não me negaste a bengala nem o fato;

Longe do Zombo me abriste o desterro

E não te escusaste de repartir o prato



Cheguei mendigo e simplório marujo,

Me atendeste com o peixe e o cais;

Muitos mares ainda havia por navegar

Mas o destino é o viver quem faz



Cheguei,longe dos braços da Ilha do Cabo;

Me estendeste os teus - de bom anfitrião;

E sem nunca me teres visto mais negro

Me ofereceste o teu amor de irmão



Cheguei sedento - adejando sonhos,

E me deste de beber - não de utopias;

Deus não escreve por linhas tortas,

Nem te juntou a mim só por filantropia



Deus - que nos fez à Sua semelhança,

Um dia te fez - pra mim - como um anjo;

Só exalto as virtudes desse Onipotente

Que me dão o sopro ditoso que esbanjo



Que se veje em ti sempre a cara do Pai,

O verbo do Filho, o espírito do Santo...

Mesmo que a orbe vil te arme ciladas

E o galo, três vezes, venha a soltar um canto



Cheguei até aqui depois de cego, mendigo

E depois de tantos mares ter navegado

Pra render a Tata Nzambi toda a graça
E não deixar de te dizer: Muito Obrigado!

AMIGOS E AMIGOS
(N. Talapaxi S.)


"O nkundi ozolanga
Ntangwa zawonso,
O mpangi muna mpasi kawutukila"
Ngana 17:17
(Provérvios)


Assim como a sombra aparece
Quando há claridade
Mas, cobrindo-se o céu todo de nuvens,
Logo desaparece na escuridade


Desse modo há os amigos
Que só aparecem na prosperidade
Mas logo desaparecem
Quando chega a adversidade


Que amigos são esses
Que só aparecem quando há claridade?
Esses fazem a sombra
Mas jamais fazem uma amizade!


TEM DE AMIGO SÓ O NOME
QUEM NO PRAZER SE TRAZ
MAS NA DOR QUE NOS CONSOME
DE AMIGO NADA FAZ


Luanda, 1988


















domingo, 26 de julho de 2009

PENÚRIA
N. Talapaxi S.

"Kadi zula itelamena zula,
kintinu ye kintinu: mukala
mvengele ya nzakama za ntoto
o mwaka-mwaka. Muna wokela
kwa umpumbulu, o zola
kwa wantu ayingi kuvola"
Matai 24:7-12
(Mateus)



Vida ancorada a sobejos
Quem nem sempre sobram
De alguma mesa abastada
Mas lá se fica
Lançado à sorte;
Sentinela no trono da miséria!


Eis o homem
A quem o destino assentou nos antros
Entre cabanas e picadas,
Arranha-céus e auto estradas,
No desalento
De não ver aflorar na existência
Um só ramo de esperança!


Eis a mulher
Que deteriora a duçura das suas belezas
Na penúria da sobrevida
Ofertando as suas entranhas
Ao prazer de outros infelizes
No horizonte de ter um pão!


Eis uma criança,
Uma grosa, um milhar, um milhão...
Sem um sonho pra sonhar;
Coração mendigo
Acalentado por algumas esmolas
Sob o instinto de - pelo menos,
Não perder o sopro!


É a humanidade!
Eis a humanidade
No cortejo fúnebre do amor
Rendendo continências a escória
E vangloriando-se mais
E demais
Pelos louros das ciências e tecnologias
Da nossa Era internética!

terça-feira, 7 de julho de 2009


PORQUÊ OS CASAMENTOS

NÃO DURAM MAIS COMO ANTES?

De N. Talapaxi S.




"Muna diadi o yakala

i keyambwil'o s'andi yo ngw'andi,

katatidila nkaz'andi:

bekala nitu mosi"

Etuku 2:24

(Gênesis)






Porquê os casamentos
Não duram mais como antes?



Porque os gostos
Deixaram de ser semelhantes?



Porque as pratas-da-casa
Não são mais tão brilhantes?



Porque dormem juntos
Mas sinham - e acordam - distantes?



Porque as noites-de-núpcias
Não tem mais lua-de-mel no quarto minguante?



Porque dos suspiros de poesia
Só sobraram prosas fatigantes?



Porque os pares não se deixam ser mais
Mais amantes?


Porque as mulheres
Não são mais só coadjuvantes?



Porque os protagonistas
Atuam como se fossem figurantes?



Porque as proles
Não são mais nada abundantes?



Porque tornaram-se sociedades
De sócios tão ambiciosos como ignorantes?



Porque falta lapidá-los
Como se faz com os diamantes?



Porque falta fogo
Pra transforma-los em ouro fulgurante?



Porque a fidelidade
Não resiste mais aos jovens ficantes?



Porque a internet
Tornou-se a alcova dos pulos mais picantes?



Porque os casais não toleram mais
Ser tolerantes?



Afinal, porquê os casamentos
Não duram mas como antes?

segunda-feira, 22 de junho de 2009

VERSÍCULOS AO ACASO (III)

N. Talapaxi S.

O passado move-se

Atraves do presente

E funde-se no futuro

A espera da gente

terça-feira, 9 de junho de 2009


SOBREVIVENTE

N. Talapaxi S.






Vejo a fome que mata o mato

A sede que mata a rio;

Vejo o mar que afoga a praia,

O calor que racha o frio

Vejo a cova que se abre no céu

Sepulcro do que morre na terra

Vejo o Sermão da Montanha calado

Onde soam os gritos da guerra


E eu ainda sobrevivo


Mas morro pouco a pouco



Vejo a vida que se envenena


Com a justiça em recesso


Vejo o caminho da benevolência


Com a seta no sentido inverso


Vejo o sangue verde se vertendo


Na lareira das vaidades


Vejo o sopro que se vai na água


No dilúvio que devasta cidades



Mas eu ainda sobrevivo


E morro pouco a pouco



Vejo a vida não valendo nada


Desde o fratricídio de Caim


Vejo, páro mas não sei o que pensar


Se foi só o começo do fim


Vejo todos se devorando uns aos outros


Onde o princípio do amor se anula;


Vejo a luz do cenáculo se apagando


E a ceia acontecendo no breu da gula



E eu ainda sobrevivo


Mas morro pouco a pouco

sexta-feira, 29 de maio de 2009


A COR DE DEUS (I)

N.Talapaxi S.




Se sou negro - não pardo,

Legítimo - e não bastardo,

Porquê que eu duvidaria então

Que Deus - que é casto,

É pai - e não padrasto,

Não é também um negrão?
HAJA LIBERDADE
N.Talapaxi S.



"O Mfumu i Mwanda:

kuna kwin'o Mwand'a Mfumu,

i kwin'o vevoka"

Korinto II 3:17
(II Coríntios)




Enquanto podemos sonhar e pensar

Grades para nós nunca serão prisões;

Se não temos a liberdade interior,

É dentro de nós que estão os grilhões



Quem é livre sendo escravo na mente,

Se na mente faz-se o homem livre ou não;

Se a alma não se loberta das algemas,

É escusado escancarar as portas da prisão!



Por mais senhores que somos de nós

Toda a liberdade encerra um limite;

Liberdade é esse direito que gozamos

De fazer tudo o que a lei permite




Haja justiça em tudo o que a lei permite

E teremos a liberdade que nos basta;

Pois, um povo justo é um povo livre

Traz o coração destemido e alma casta




















quarta-feira, 27 de maio de 2009


VERSÍCULOS AO ACASO (II)

N. Talapaxi S.


Quem viu o desabrochar dos lírios

Na virgindade da Primavera

Conhece a aurora dos amores

Que sonham sonhos de quimera

SEM SABER
N. Talapaxi S.


"Ngangu imbuta diambu;
ozevo baka ngangu:
muna mbaku aku awonso
baka mbakula"

Ngana 4:7
(Provérbios)


Nasci
Sem saber ter nascido;
Cresci
Sem saber ter crescido;
Caminho
Sem saber caminhar;
Perco
Sem saber perder
Mas venço
Sem saber vencer
E aprendo
Sem saber aprender


Sinto
Sem saber sentir
Que amo
Sem saber amar
E espero
Sem saber esperar



Tenho
Sem saber ter;
Quero
Sem saber querer
E posso
Sem saber poder...
Mas vou
Sem saber ir



Nasci
Sabendo ter nascido;
Vivo
Sabendo estar (sobre)vivendo
E hei de morrer
Sem saber ter morrido

VERSÍCULOS AO ACASO (I)

N.Talapaxi S.


O que vejo são flores

Que perdem a essência

Mal despontam do botão

No canteiro da inocência!

terça-feira, 26 de maio de 2009


F A R I S E U S

N. Talapaxi S.

"Tatu kwa yeno, asoneki
ye afarisi, akwa kuvunina!
kadi nukianzisa nim'a mbungwa
y'elonga, vo i muna ngudi,
mwazala yo mbiki ye yingalu"

Matai 23:25
(Mateus)



...pois existem escribas e fariseus

Espionando os teus movimentos

Empenhados em descobrir os teus erros

E punir-te torcendo os mandamentos



Homens propensos a apedrejar-te

Por quaisquer que sejam teus adustérios;

Querendo tirar o cisco do teu olho

No obscuro de seus próprios critérios



Muitos algozes com olhos de lince

E a língua afiada contra a tua saúde;

Dados à eminência de executar uma pena

Que te arraste logo pra o ataúde



Caras de cordeiro - almas de abutre,

Peritos nas tecelagens da injustiça,

Sentinelas ao pé dos teus pecados

Com a esperança posta na carniça...



Ai de vós, fariseus! cristãos hipócritas!

Do corpo e do prato limpam o exterior

Mas estão cheios de sujeira no interior;

Como escaparão do fogo do inferno?!







MÁSCARAS
N.Talapaxi S.


"O ntima usundidi
mawonso o tekama,
wayela kikilu:
nani ozeye wo?"

Yeremiya 17:9
(Jeremias)


Nem tudo o que brilha é ouro,
Nem tudo o que alveja é prata;
Há um santo do qual dói a falsidade,
Há um anjo com alma de psicopata


Sob o céu ninguém conhece ninguém
Senão o Criador a Sua criação;
Há uma máscara no rosto de cada um,
Quem vê cara não vê coração!

"IN NATURA"
N. Talapaxi S.


"Edienga, dialuvunu;
o wete, wangengo:
o nkento ovumina
Yave i'kembelwa"
Ngana 31:30
(Provérvios)



Não se enlaçam no seu pescoço
Nem ouro, nem prata, nem rubis...
Seu regaço é uma jóia sem bisturis
Feita pelo Grã-ourives sem esboço



Não ostenta, entre os seus dedos,
Nem brilhantes, nem elos de enlace
(Talvez eu podesse lograr dela uma chance
E findariamos a vida juntos e ledos!!!)



Seu ser é um corpo diamantino,
Sua modéstia realça a explêndida tez;
Se o tempo reduz a sua solidez,
Aumenta o seu quilate para o destino!



Sem berloques aos tornozelos,
Nem de safira, nem de cristal ou outros adornos,
Ela é um tesouro em seus contornos
E a explosão de muitos... muitos anelos!


Sem nenhum til postiço na figura
Não lhe faltam beldades aos traços brutos;
Cabem ao Artífice Criador os tributos
E a mim só resta admirar a criatura!


sexta-feira, 15 de maio de 2009


VIA CRUCIS
N.Talapaxi S.


"Umfwila nkanda, eYave,
Kadi mu mpasi ngina:
E disu diame dikobokele,
Ye moyo ame ye nitu!
Nkunga 31:9
(Salmos)


Andei em bolandas
Perdi-me no espaço...
E na via crucis
Do querer-te esquecida
Espalhei um rastro
De lágrimas de sangue
De um coração esquartejado
Uma alma aleijada


Até onde vou?
- Não sei!
Mas, certamente
(Ja-mais)
Te esquecerei!







terça-feira, 12 de maio de 2009

ARTE DE ÉBANO


Seus passos
No invejar do antílope
No compasso das suas ancas
Balançam a dança
Que balança as suas tranças
E os gêmeos de maboque
Que estufam o seu peito
Só não dançam os meus olhos
Hipnóticos
Enfeitiçados
Diante de toda essa arte!
Mas minha alma balança


Nem mulata de alegorias
Nem morena de sol a pino
Nem chocolate
Nem marrom de superstições
Nem mulher "de cor"


Mas preta - com muita graça
E negra - com toda a raça


Com a pintura de nagô
E a magia dos bantos
Essa escultura de ébano
Me balança

N. Talapaxi S.

segunda-feira, 11 de maio de 2009


É GATUNO!
N. Talapaxi S.


"Efi kenafiau o nsongi,
i fiwetw, ke mu ulolo wa mbidi
a yimpumbulu.
Tona kwa zilu, yo tata nsongi:
kadi mbaninu andi luvuvama"
Nkunga 37:16-27
(Salmos)



Quem rouba é um pobre
Quem sonega é um nobre

Quem rouba conta os tostões
Quem sonega multiplica os milhões

Quem rouba morre presidiário
Quem sonega vive milionário

Quem rouba é o pobre
Quem sonega é o nobre

Quem rouba é o pião
Quem sonega é o patrão

Quem rouba corre o risco
Quem sonega confisca o fisco

Quem rouba come o pão que o diabo amassa
Quem sonega brinda o que trapaça

Quem rouba não tem mérito
Quem sonega tem crédito

Quem rouba tem a lei por cima
Quem sonega tem a lei de estima

Quem rouba agrava o dilema
Quem sonega ganha um diadema

Quem rouba é perseguido
Quem sonega é protegido

Quem rouba sempre aparece
Quem sonega... desaparece

Quem rouba acaba morto
E deixa uma desgraça;
Quem sonega morre no conforto
E deixa uma herança

COMEDIA DO DIABO 2


"kusundwa kwai bo,

sunda kak'o bi muna wete"

Romanos 12:21



Equilibrando-se sem asas
À borda do despenhadeiro
Entre o concreto do Chá
E o abstrato do abismo
Na vasta cova do Anhangabaú;
À bordo de um astral vazio,
Entre as dúvidas

E as dívidas - da existência
E a sedução da morte...


Eis o seu picadeiro
Para a derradeira sátira


Eis o seu monte
Para o último sermão


Eis o seu trampolim
Para o pino final...


Perdeu a fonte a água,
Perdeu o pão;
Perdeu a alma e a estima,
Perdeu o chão;
Perdeu a fé e até o sonho
Perdeu - pra si mesmo - o perdão


É a comédia do diabo:
Você escreve - ele produz;
Você atua - ele conduz;
Voce recua... e não acha luz


Equilibrando-se a beira de um inferno
Só lhe falta pensar... e (a)tirar-se
Pra chegar ao fim
Mas perdeu também o equilíbrio
E sem asas pra voar
Perdeu-se!



N. Talapaxi S.